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Trinta anos de humor paulistano

Na verdade, o humor gráfico existia, mas se apresentava muito mais na forma de charges e caricaturas publicadas nos jornais e revistas. O que não havia – como não há até os dias de hoje – era uma indústria consolidada, um mercado estruturado, como se vê, sob diferentes enfoques de negócios, em países como os Estados Unidos, Japão, Itália e França, para citar apenas os maiores.

Desde o século XIX, os jovens brasileiros – e os adultos, por que não? – aprenderam a apreciar os artistas dessas e de outras origens. Por aqui, as histórias em quadrinhos chegam em 1869 com a publicação, na revista Vida Fluminense, de As Aventuras de Nhô Quim, de Angelo Agostini, um italiano radicado no Brasil1. As revistas só viraram uma tradição em 1905, com o lançamento  de Tico-Tico, que trazia as histórias de Buster Brown, do americano Richard F. Outcault. É curioso saber que, a partir desse período, surgiu um amplo campo de trabalho para tradutores. O poeta e jornalista Olavo Bilac foi um dos que trabalharam com a versão de quadrinhos para o português.
O auge das HQs no Brasil teve lugar no momento em que editoras como a Abril e a Globo passaram a negociar fortemente como os syndicates, as agências estrangeiras especializadas na venda de quadrinhos, como o King Feature Syndicate, Warner Brother/ Western Printing & Lithographing Company, entre muitos outros. Aliás, foi graças ao Pato Donald que a Editora Abril lançou-se no
mercado, transformando-se na grande corporação que é hoje.
Fosse como fosse, a verdade é que Batman, Superman, Mandrake, Fantasma e muitos outros personagens integravam um universo de fantasia e delírio para garotos como Antônio de Souza Mendes Neto. Desde pirralho, o moleque da Casa Verde, bairro da zona norte da capital paulista, era um apaixonado pelos gibis. Tanto que com 12 anos chegou a trabalhar na feira, numa banca de venda e troca de HQs. Toninho estabeleceu assim sua primeira relação comercial com o mundo das publicações. Era o final dos anos 1960 e ele tinha amizade com um vizinho, um garoto dois anos mais jovem: Arnaldo Angeli Filho, o Dinho.

HQ Brasileira

Os dois garotos da Casa Verde ainda não sabiam, mas iriam fazer história com os quadrinhos. Ambos seriam influenciados por horas e horas de leitura, não apenas dos gibis de super-heróis americanos, mas por toda uma cultura gerada por artistas gráficos brasileiros ou não. Toninho cita ao menos dois artistas da década de 1940 que foram importantes para ele: Péricles de Andrade Maranhão, com o célebre O Amigo da Onça, e Carlos Estevão, com o Dr. Macarra, os dois criados para a revista O Cruzeiro, respectivamente, em 1943 e 1962. Os dois desenhistas tinham nos comportamentos humanos e nas relações sociais seu principal material de trabalho.

Na verdade, o alvo prioritário dos artistas gráficos era a política e os políticos. Considerada a primeira charge impressa no país feita por um brasileiro, “A campainha” foi realizada em 1837 por Manuel de Araújo de Porto-Alegre, o Barão de Santo Ângelo. A charge criticava a corrupção e o servilismo da imprensa em relação ao governo.
Na conturbada década de 1960, especialmente após o golpe militar de 1964, o humor político passou a predominar nos jornais e nas publicações alternativas. Lançado em junho de 1969, o semanário O Pasquim (que depois viraria apenas Pasquim) não tinha grandes pretensões. Criado por Tarso de Castro, Jaguar, Millôr Fernandes, Fortuna, Ziraldo, Claudius, Carlos Prósperi, Sérgio Cabral e outros, recebendo depois reforço de pessoas como Henfil, o jornal tornou-se um dos principais porta-vozes contra a ditadura. De alguma forma, aquele semanário anárquico traduzia para o português o momento revolucionário pelo qual os jovens do resto do mundo passavam. Com palavrões na manchete, caricaturas de governantes e gozações insolentes, foi uma das principais encarnações em papel- -jornal da oposição ao regime militar.

Enquanto isso, lá fora, o mundo vivia sob influência da Guerra Fria e de movimentos que pediam liberdades sociais, paz, direitos humanos. Todo esse caldo servia de inspiração para artistas gráficos de quadrinhos inseridos no chamado underground: Robert Crumb, Gilbert Shelton, Guido Crepax e Georges Wolinski, para citar alguns. Aqui dentro, a HQ nacional não atingia um grande
público. Mauricio de Sousa, em uma entrevista à Revista Vozes de julho de 1969, falou sobre a dificuldade da profissão de desenhista de quadrinhos. “No começo foi duro. (...) Os jornais, os diretores de jornais, não acreditavam que o público aceitasse as histórias brasileira”, diz Toninho Mendes, nosso assíduo leitor de quadrinhos.

Para ele, isso resulta, basicamente, de uma questão de ordem econômica e cultural. “Os Estados Unidos são os donos da maior indústria de cultura do mundo, há mais de 80 anos”, mas ele cita exemplos de outros países. “Não vou nem mencionar o Japão, porque é um negócio monstruoso, mas na França você tem um personagem do tamanho do Tintim. O Hergé [que, na verdade, é belga de nascimento] fez mais de 40 álbuns durante 45 anos de sua vida profissional. Os jornais pagavam e por isso ele pôde fazer. Virou filme, camiseta, bolsa, boné...”.

É tudo assim tão comercial? Sim e não. Toninho faz questão de lembrar que mesmo em torno dos quadrinhos mais “cabeça”, mais difíceis de ler, como os de Georges Wolinski, existe um universo econômico. “Do mesmo jeito que tem em volta do [Robert] Crumb, nos Estados Unidos. Ele é contra o sistema americano, mas é ‘falsamente’ contra, porque também acabou fazendo parte de um negócio. Ele é um gênio do desenho, mas é também um grande entendedor da espécie humana”, explica.
Ele, porém, defende que, nos dias de hoje, existe muito mais uma “mitologia” do que uma real dificuldade de se fazer quadrinhos no Brasil. “Há 20 ou 30 anos, a grande questão era o que fazer com os quadrinhos depois de desenhados. Hoje você nã0 tem essa questão tão aflorada. Com a mudança nos meios de comunicação, a pessoa começa a colocar na internet e acaba fazendo um livro.

Apesar disso, o Brasil e a América Latina não tem mesmo uma indústria dos quadrinhos, um mercado que dê sustentação a isso. Nunca teve. Não é como nos Estados Unidos ou na Europa. Quando o Guido Crepax [autor do sucesso Valentina] lançou aquilo, nos anos 60, já havia um mercado que dava sustentação. As editoras investiram e permitiram a ele lançar outros livros. E eles exportam isso corretamente. Portanto, não é questão de talento ou capacidade, é falta de indústria. E só para fins de comparação com os brasileiros, cito apenas dois dos que conseguiram criar um grande negócio: o Mauricio [de Sousa] e o Ziraldo. Eles são completos por terem transformado sua arte e seu conteúdo em um grande negócio.”

Circo mágico

Influenciado por tanta coisa boa, Toninho Mendes poderia ter sido um desenhista, mas a vida acabou conduzindo-o para uma atividade “paralela”, tornou-se editor, graças à experiência que adquiriu trabalhando na mídia. Seu trabalho na imprensa independente, nos jornais Movimento e Versus, lançados em 1975, em plena didatura militar, foi seu maior aprendizado. E foi no jornal Versus que encontrou um dos seus maiores incentivadores, o jornalista Marcos Faerman, e também onde estreitou suas relações com praticamente todos os artistas envolvidos dez anos depois na criação da Circo Editorial: Luiz Gê, Chico e Paulo Caruso, Alcy e outros desenhistas.

Sua primeira editora, criada em 1980, foi a Marco Zero, que lançou três livros em sequência, sendo o primeiro deles A confissão para o Tietê, do próprio Toninho, uma elegia ao rio de sua infância, que demorou dez anos para ser escrita. E parou por aí. Reveses fizeram com que o negócio não tivesse continuidade. Mas a verdade é que seu grande sonho era criar uma editora de humor em quadrinhos. E a influência de O Pasquim fora avassaladora, não apenas no editor, mas em todos os artistas que o cercavam, como seu próprio amigo de infância, o Dinho, que agora, já atuando como profissional, era mais conhecido como Angeli.

E assim surgiu a Circo Editorial, fundada oficialmente em 1984, exatamente em 25 de abril, data histórica que marca o fim da campanha pelas Diretas Já, quando o pleito foi derrubado pelo Congresso – mais uma vez a política influenciando o humor brasileiro. “Em um dado momento, você tinha o quadrinho de terror, o de putaria e o super-herói americano. Aí chega O Pasquim
que representa uma alternativa de mercado em grande nível. Não havia nada parecido. E, então, surgimos nós. Digo que a Circo está para os anos 1980 assim como O Pasquim esteve para os anos 1970. É uma tese acadêmica que estou ajudando a construir”, diz o editor Toninho Mendes.

Com apoio fundamental de Chico Caruso, o primeiro lançamento foi uma coletânea das tirinhas que Angeli publicava na Folha de S.Paulo, com personagens como Bob Cuspe, Rê Bordosa e Benevides Paixão, intitulada Chiclete com Banana, Bob Cuspe e outros inúteis, com tiragem inicial de três mil exemplares. O segundo livro da Circo foi Não tenho palavras, de Chico Caruso, lançado em setembro. Ambos se deram muito bem nas livrarias. “Eu diria que os artistas da Circo estão mais perto do Crumb e do Wolinski. A grande diferença da Circo é o conteúdo, uma afronta com o que se produziu antes e depois no Brasil. É único. Tinha algo antes, mas é muito esparramadinho. Teve depois, mas, de novo, ficou esparramadinho”, define seu criador.

Humor Paulistano
 

Se a crítica social sempre foi um dos principais temas abordados pelos artistas gráficos brasileiros, esta sempre teve um viés essencialmente carioca – talvez pela origem da maioria dos autores que se lançaram no mercado até aquele período. Chegara a vez de o humor paulistano desafiar os novos costumes de uma sociedade que acabava de deixar a prisão da censura militar.

A década de 1980 não se caracterizou apenas pela volta à normalidade democrática, mas foi também um período marcado pela crise econômica, que fez a inflação disparar e sair do controle, pelo crescimento do movimento operário, pela maior participação da mulher na vida social, pela disseminação do vírus HIV, que vitimou milhares de pessoas, e pelo aumento da violência urbana e da deterioração das grandes cidades, como São Paulo. Todas essas questões são abordadas nas publicações da Circo Editorial – com uma visão peculiar, o olhar paulistano.

Cidade multicultural e cosmopolita, São Paulo – aquela da feia fumaça que sobe apagando as estrelas, da força da grana que ergue e destrói coisas belas, como disse Caetano – gerou um humor distinto, da mistura de raças, etnias, credos, tribos e ambições. E no humor paulistano da Circo Editorial, essa megalópole múltipla é habitada por personagens como o eterno militante de esquerda, o
machista inveterado, o roqueiro lisérgico, o punk contestador, a solteirona porra- -louca, o casal estressado, a secretária ninfomaníaca, os homens solitários fazem das mesas dos bares – a praia paulistana – sua casa, sua âncora, sua razão de viver,
e, claro, os piratas que navegam pelo Tietê. Os edifícios, as ruas, os carros, o trânsito engarrafado, a poluição, a ganância, a crítica social, com grandes pinceladas de contestação política – tudo está ali exposto, na arte de um time de gênios. É preciso ressaltar também que essa concepção de humor, nascida em São Paulo, não se restringiu à cidade ou à década de 1980. Quadrinistas das
gerações seguintes e de outras partes do país foram fortemente influenciados pelas publicações da Circo Editorial no desenvolvimento de seus cartuns, charges e histórias em quadrinhos. Publicitários, humoristas de rádio, da televisão e do cinema também beberam nessas fontes e passara a inovar o humor, tornando- o mais crítico e menos condescendente.

Magia resgatada

Ao lado de todo o sucesso editorial, o grande problema que a Circo enfrentou desde seu surgimento em 1984 foi a inflação – e só quem viveu naquele período pode entender o verdadeiro inferno que eram as tentativas de estabilizar a moeda, que mais complicavam que ajudavam. Somado a isso, problemas de gestão acabaram levando a Circo a funcionar também como um estúdio, produzindo ilustrações para livros de outras editoras. Em 1991, Toninho Mendes voltou ao mercado de trabalho e participou, a convite de Augusto Nunes, da reforma gráfica que introduziu a cor no jornal O Estado de S. Paulo. 

O pique da Circo tinha acabado. Seu criador comercializou de várias formas o encalhe da editora por dois anos. Eram cerca de 100 mil revistas. Mandava de volta para as bancas, juntava e fazia promoções especiais. Aí teve que entregar a casa onde mantinha o estoque e levou tudo para o galpão de um amigo na Baixada do Glicério. Em 1999, uma das poderosas enchentes históricas da cidade de São Paulo transformou em uma pasta disforme todos os exemplares que restavam – os Piratas do Tietê reivindicaram seu espólio de guerra!

Toninho seguiu trabalhando na área editorial de diversas empresas. Em 2000, em parceria com a Devir, criou o selo Jacaranda e voltou a editar autores da Circo. Em 2006, preparou para a L&PM uma coleção da mesma gangue. E, em 2010, abriu a Peixe Grande, que já lançou seis livros, com o propósito de contar a história do humor, dos quadrinhos, da pornografia e da censura no
Brasil. No momento, desenvolve o projeto A História em Quadrinhos no Brasil – Os desenhistas de A a Z.

“Esta é a magia da Circo, ela veio para ser o que fosse - ninguém estava a fim de nada sério, ou de mudar, de impor conceitos”, declara Toninho Mendes. Essa magia foi capturada e editada em um volume com mais de 400 páginas do livro Humor paulistano - A experiência da Circo Editorial 1984/1995, organizada pelo próprio Toninho, e que será lançada pela Sesi-SP Editora. O cartunista Jaguar chama Toninho de “o Brian Epstein do quadrinho brasileiro”, referindo-se ao famoso empresário que “criou” os Beatles.
Há quem diga que o time da Circo é comparável à Seleção Brasileira de Futebol de 1970 – um grande técnico para uma porção de craques –, mas com um Garrincha de extra (no caso, o cartunista Glauco Vilas Boas). “Todos eles juntos eram um bicho. Todo mundo criado na ditadura, com um arquivo morto que não podiam publicar. E isso desembocou comigo, não é que fiz as coisas que
prestam, eu apenas estava lá. Não tenho culpa se tenho tantos amigos gênios”, conclui Toninho.

 

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